COMUM DEUS




Como um deus que dorme
eu me aceito e me acato
e me deleito e me dilato
como um deus disforme.

Como um deus que acorda
eu me rejeito e me deflagro
e, contrafeito, me desacabo
como um deus que engorda.

Como um deus que nasce
eu me empreito e me lavro
e me ajeito e me consagro
como um deus sabe-se.

Como um deus que cresce
eu me enfeito e me propalo
e me igrejo e me ensalo
como um deus merece.

como um deus de porre
eu me ensejo e me ensaio
depois me pejo e me es-vaio
como um deus que morre.








Contraste







Hoje revi um amor
que há muito perdi

e que julgava morto

mas passou por mim
todo em si
sereno, absorto,

como se ainda fosse vivo,


como se eu estivesse morto.

Briga




Passei o dia
em desacordo
comigo.


Cansei-me
da briga:

vou dormir
acordado

comigo.

Wilson Pereira: sem título

Wilson Pereira: sem título: Não cabe em mim o silêncio de Deus. Dá vontade de gritá-lo como um grilo ou um galo.

sem título

Não cabe em mim
o silêncio de Deus.

Dá vontade
de gritá-lo

como um grilo
ou um galo.

Visão



Passaste em minha porta
como uma lua soberana


e eu te segui

com meu olhar de varandas.

Cena




Hoje eu vi um menino
catando numa lata de lixo
um pedaço duro de pão.


Meu olhar úmido
de lata o meu coração


e a mão do pequeno
me revolvendo por dentro
me provocando a náusea
da fome e suas causas.


Tive ímpeto de avançar
sobre o serzinho rabugento
e arrancar-lhe dos dedos
aquele resto sujo de minha
indignidade!



FAZENDA



No fundo do quintal
corria um rego
de águas friinhas.

As galinhas bicavam
pedacinhos de águas
e agradeciam.

Os canarinhos
pintavam de amarelo
os verdes do terreiro,
pareciam árvores
bordadas de estrelas.

Eu tinha alegrias
e medos.

Um dia um beija-flor
bicou-me os dedos:

nasceu-me poesia

desde os cabelos. 

A Deus, meu Pai (para o Roberto Lima)


Quando meu pai
me deu adeus,
eu dei a Deus meu pai.

E confiei no seu destino
superior.

De Deus somos herança
e se Ele não cuidar
do que é seu

não merece nossa confiança. 

Caçada





O momento
feriu a asa de um pássaro
em movimento.

O tempo sempre caça
e alcança tudo

o que passa.

(Nem sangrou
a asa ferida).


A morte não perdoa a vida.

Tarefas (Clênio Pereira)*



Não vim à vida amansar carneiros.
Vim certo, ligeiro, trazer tarefas de mim,
prostrado, confuso ante a efervescência
mística da vida.

Não estou de mãos atadas.
Conservo as boas falas
de todos os velhos amigos,
as lembranças dos doces de leite
e do requeijão polpudo e cheio de sardas.

Dispus, aos companheiros, da minha esperança
e encomendei outra aos novos amigos.

As mulheres que me experimentaram o gosto de mel
não esgotaram por completo
suas reminiscências de fel.

Não vim à vida para compor régias canções,
revolver dogmas da aritmética,
escudar os heróis em sua benignidade de órfãos,
Não quero registrar as guerras,
inventos e desajustes deste tempo.

Não recebi um recado
do motivo de viver.
A cada tarde,
sorvo uma dose de atrevimento e me recordo
de alguns nomes que geografaram minha existência.

Não tenho certeza,
por isso que vim à vida

e luto por ela.


* Poema de autoria do meu irmão Clênio Pereira, falecido em 1984, aos 25 anos de idade.

Travessia (para meu irmão Clênio, poeta, in memória)






Atravessaste a vida
como um menino travesso
atravessa uma avenida
num dia de festa; 

como um sino
atravessa a tarde,

como uma imagem
atravessa a saudade;

atravessaste a vida
como um corisco,
que, entre nuvens,
se arisca dos olhos;

atravessaste o tempo:

como um menino
apascentas um rio
                      sem margens.

Outro de Mim







A vida
me alucina
e me espanta,

cada esquina
arma a garganta
do imprevisto.

E eu
resisto em mim
a gula, a fila,
o alvoroço.

E eu
assisto em mim
a chama, a fenda,
o sol posto.

E me ilumino
e me alumbro
e me contamino
por pouco.


E eu
me salto em mim
me solto, absorto,

e quando volto
passo por mim,
                             oposto.

Aniversário

Hoje, dia primeiro,
é meu aniversário.

Dois anos se contam
inversamente:

mais um para trás, 
menos um pela frente. 

E nesse jogo passageiro,
em que dá as cartas o calendário,

o tempo é meu parceiro
e também meu adversário.

Poeta






Poeta não é quem
escreve  bem arrumado

feito quem veste o poema
de terno e bravatas,

nem é quem
arranja belezinhas
de nadas.

Poeta
é quem dá susto
nas palavras.